Infraestrutura no Brasil: Executivos Sinalizam Cautela com Eleições e Cenário Global
Executivos de infraestrutura no Brasil indicam cenário desfavorável para investimentos, citando eleições e instabilidade global. Investimentos bateram recorde em 2025.
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Análise Setorial de Infraestrutura: Executivos Apontam Cenário Desfavorável para Investimentos, com Eleição e Fatores Macroeconômicos como Preocupações
Destaques
A percepção de um cenário desfavorável para investimentos em infraestrutura no Brasil aumentou significativamente, atingindo 30,9% entre executivos, investidores e especialistas, um salto em relação aos 20,4% registrados anteriormente.
As eleições presidenciais, a instabilidade macroeconômica global (como a guerra no Oriente Médio e o protecionismo comercial) e a reforma tributária são apontadas como os principais fatores que geram cautela e afetam a confiança do setor.
Apesar do cenário de maior cautela, os investimentos em infraestrutura atingiram um recorde de R$ 280,4 bilhões em 2025, impulsionados em grande parte pelo setor privado, que respondeu por cerca de 80% do total. Há projeções de que os aportes alcancem R$ 300 bilhões para este ano.
Aumento da Cautela no Setor de Infraestrutura
O setor de infraestrutura brasileiro, que recentemente atingiu um marco histórico de investimentos em 2025, agora observa um crescente pessimismo entre seus principais agentes. Uma pesquisa semestral realizada pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) em parceria com a EY-Parthenon revelou que a parcela de executivos, investidores e especialistas que considera o cenário para novos investimentos desfavorável saltou de 20,4% para 30,9% nos últimos seis meses. Essa elevação interrompe uma trajetória de recuperação do otimismo que havia sido observada em períodos anteriores, atingindo o menor nível desde 2022. Em contrapartida, a percepção de um cenário favorável para investimentos no setor recuou de 54,2% para 37,8%, indicando um clima de maior cautela.
Gustavo Gusmão, sócio da EY-Parthenon para Governo e Infraestrutura, destaca que essa mudança de sentimento é fruto de uma "somatória de fatores", que incluem desde questões eleitorais até tensões geopolíticas e desafios econômicos internos. A pesquisa, que ouviu 233 participantes entre 8 e 23 de junho deste ano, aponta para um ambiente onde a expectativa de continuidade dos investimentos existe, mas com menor convicção quanto às condições para a promoção de novos projetos no curto prazo.
Fatores que Moldam a Percepção de Risco
Diversos fatores macroeconômicos e políticos estão contribuindo para o aumento da apreensão no setor de infraestrutura. A proximidade das eleições presidenciais é um dos elementos centrais. Quase 44% dos executivos consultados na pesquisa da Abdib/EY-Parthenon afirmaram que a vitória de um candidato de oposição ao governo atual teria um impacto positivo nos investimentos em infraestrutura. Por outro lado, cerca de 26% dos participantes preveem um impacto negativo caso o atual governo seja reeleito, enquanto 23% acreditam que não haveria alteração significativa. Essa divisão reflete a incerteza sobre as futuras políticas setoriais e o ambiente regulatório que podem emergir após o pleito.
No cenário internacional, o conflito no Oriente Médio tem gerado preocupações significativas. Aproximadamente 44% dos entrevistados apontam um impacto médio sobre a logística e o preço do petróleo, e 20,3% consideram o impacto alto. O aumento nos custos de insumos e materiais, decorrente da volatilidade nos preços do petróleo, afeta diretamente a execução de projetos em diversos segmentos da infraestrutura, como rodovias e saneamento. Adicionalmente, o avanço do protecionismo comercial e a persistência de juros elevados e inflação no cenário global também são fatores de risco mencionados.
A Reforma Tributária, que deixou de ser uma preocupação meramente futura para se tornar uma questão operacional e contratual, também figura como um ponto de atenção. Cerca de 62% das empresas já estão analisando os efeitos da reforma sobre seus contratos, e 13,4% planejam iniciar essa análise ainda no atual exercício. A incerteza sobre a nova estrutura tributária pode impactar o planejamento de longo prazo e a rentabilidade de projetos de infraestrutura, que geralmente possuem prazos de execução e operação extensos.
Investimentos Recordes em 2025 e Projeções para o Atual Exercício
Apesar do crescente pessimismo em relação ao cenário futuro, o setor de infraestrutura registrou um volume recorde de investimentos em 2025, alcançando R$ 280,4 bilhões. Este montante representa o maior valor da série histórica iniciada em 2010. Cerca de 80% desses aportes vieram do setor privado, demonstrando a sua relevância na viabilização de projetos. A Associação Brasileira da Infraestrutura e das Indústrias de Base (Abdib) projeta que os investimentos para este ano devam atingir aproximadamente R$ 300 bilhões.
O presidente-executivo da Abdib, Venilton Tadini, descreve esse movimento como um "ciclo virtuoso", impulsionado pela melhoria na estruturação de projetos, no ambiente regulatório e nas fontes de financiamento. Ele ressalta, contudo, que o volume atual de investimentos, que representa cerca de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), ainda está distante dos 4% a 4,5% do PIB por ano que especialistas consideram necessários para reduzir o déficit de infraestrutura do país ao longo de uma década. Para alcançar essa meta, seriam necessários cerca de R$ 225 bilhões adicionais anualmente.
No atual exercício, o governo federal tem planos que podem movimentar cerca de R$ 404,13 bilhões em infraestrutura, considerando leilões federais e estaduais de rodovias e ferrovias, além de concessões aeroportuárias e portuárias. No entanto, a maior parte desse montante, cerca de 84%, é esperado da iniciativa privada.
Recomendações Setoriais e Perspectivas Futuras
Diante do cenário de maior cautela, mas com projeções de investimentos ainda robustas, o setor de infraestrutura busca formas de mitigar riscos e garantir a atratividade dos seus projetos. A agenda fiscal e tributária desponta como a principal prioridade para o próximo mandato federal, sendo mencionada por 44,4% dos participantes da pesquisa da Abdib/EY-Parthenon. A busca por estabilidade macroeconômica e previsibilidade regulatória, com agências independentes e maior segurança jurídica, são pontos cruciais destacados por especialistas.
A diversificação de fontes de financiamento e a estruturação de projetos com mecanismos de mitigação de riscos tornam-se ainda mais relevantes em um ambiente de incertezas. Instrumentos como o Seguro Garantia, que assegura a continuidade contratual e a execução de obras em caso de inadimplência, ganham destaque na estruturação de contratos de longo prazo.
Apesar dos desafios apresentados pela conjuntura eleitoral, geopolítica e macroeconômica, o setor de infraestrutura demonstra resiliência, evidenciada pelo recorde de investimentos em 2025 e pelas projeções positivas para o atual exercício. A capacidade de adaptação a novas regulamentações, como a Reforma Tributária, e a busca por um ambiente de negócios mais estável e seguro serão determinantes para a atração de capital e a redução do déficit histórico de infraestrutura no país. A colaboração entre o setor público e privado, aliada a uma governança corporativa sólida e à clareza regulatória, continuará sendo fundamental para impulsionar o desenvolvimento do setor e contribuir para o crescimento sustentável do Brasil.