Indústria Calçadista Brasileira: Retração em 2025 e Foco no Mercado Interno para Recuperação
A indústria calçadista brasileira enfrentou retração em 2025, com queda na produção e alta nas importações. Para o período atual, o mercado interno é a aposta para estabilidade e recuperação.
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Análise Setorial: Indústria Calçadista Brasileira Navega em Cenário de Desafios e Busca por Estabilidade
A indústria calçadista brasileira encerrou o ano de 2025 em um cenário de retração operacional e acirrada pressão competitiva, com o mercado interno sendo o principal foco para sustentar o crescimento no período atual. Dados recentes apontam para um fechamento de 2025 com queda na produção e aumento significativo das importações, enquanto as exportações enfrentaram dificuldades. As projeções para o atual exercício indicam um quadro de maior estabilidade, com o setor apostando no mercado doméstico para impulsionar a recuperação.
Destaques
Retração em 2025: A produção nacional de calçados caiu 1,9% em 2025, totalizando 847 milhões de pares, influenciada pela desaceleração do mercado doméstico e pela redução das exportações.
Aumento das Importações: As importações de calçados avançaram 20,6% em 2025, atingindo o maior volume da série histórica iniciada em 1997, com destaque para produtos asiáticos.
Perspectivas para o Período Atual: O setor projeta um cenário de estabilidade ou leve crescimento, com estimativas de variação na produção entre queda de 1,2% e alta de 1,4%, e o mercado interno como principal motor.
Desempenho de 2025: Um Ano de Contração e Pressão Competitiva
O ano de 2025 foi marcado por desafios para a indústria calçadista brasileira. A produção nacional registrou uma queda de 1,9%, totalizando 847 milhões de pares, segundo o Relatório Indústria de Calçados – Brasil 2026, divulgado pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). Essa retração foi atribuída a uma combinação de fatores, incluindo a desaceleração do mercado doméstico a partir do segundo semestre e a redução das exportações para destinos importantes como os Estados Unidos e a Argentina. A capacidade instalada da indústria também sofreu um recuo, passando de 75,9% para 73% no mesmo período.
O consumo aparente, que abrange a produção e as importações, descontando as exportações, também apresentou queda de 1,9%, alcançando 786,7 milhões de pares. Paralelamente, o volume de importações de calçados apresentou um avanço expressivo de 20,6% em 2025, atingindo o maior nível da série histórica iniciada em 1997. Os principais fornecedores de calçados importados para o Brasil continuaram sendo países asiáticos como China, Vietnã e Indonésia, respondendo por aproximadamente 80% do volume total. Um par de calçados importado da China, por exemplo, chegou ao Brasil em 2025 com um preço médio de apenas US$ 4,50, evidenciando a intensa pressão competitiva enfrentada pelos fabricantes nacionais.
No comércio exterior, as exportações brasileiras de calçados em 2025 apresentaram um cenário misto. Embora o volume embarcado tenha crescido 6,7%, totalizando 103 milhões de pares, o faturamento registrou uma queda de 1,8%, somando US$ 958 milhões. O presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, destacou que as exportações foram impactadas por fatores como barreiras tarifárias nos Estados Unidos, a desaceleração da economia argentina e conflitos no Oriente Médio. A imposição de uma tarifa de 50% pelos Estados Unidos sobre os calçados brasileiros na segunda metade de 2025 foi um dos principais fatores de retração. As vendas para os Estados Unidos, principal mercado do calçado brasileiro, somaram US$ 221,9 milhões em 2025, uma queda de 2% sobre o ano anterior. A Argentina, segundo principal destino, também reduziu suas compras em 11%, para US$ 179,66 milhões.
Cenário para o Período Atual: Busca por Estabilidade e o Papel do Mercado Interno
As projeções para o atual exercício indicam um cenário de maior estabilidade para a indústria calçadista brasileira, com a expectativa de que o mercado interno seja o principal propulsor do setor. A Abicalçados projeta uma variação na produção nacional entre uma queda de 1,2% e um crescimento de até 1,4%, podendo alcançar até 859 milhões de pares. Na média, a produção deve manter estabilidade em relação a 2025, com um crescimento estimado de 0,1%, totalizando aproximadamente 848,3 milhões de pares.
Mercado Interno como Pilar de Recuperação
A expectativa predominante é de que o mercado interno sustente a atividade do setor no período atual. As projeções indicam uma expansão do consumo aparente entre 0,5% e 3,1%. No entanto, o alto nível de endividamento das famílias brasileiras, com 29,3% da renda comprometida com dívidas, e a inflação persistente, com juros de longo prazo elevados em 4,4% nos Estados Unidos, que impactam as taxas de juros globais, continuam sendo fatores de atenção. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o nível de endividamento familiar é o maior da série histórica, atingindo 80,2%.
Desafios no Mercado Externo Persistem
No que diz respeito ao mercado externo, as previsões para o atual exercício seguem mais desafiadoras. As exportações podem recuar entre 5,9% e 12,7% em receita e entre 4,1% e 8,9% em volume. As incertezas econômicas nos Estados Unidos e a desaceleração da Argentina continuam sendo fatores de preocupação. Apesar da retirada da tarifa adicional de 40% pelos Estados Unidos em fevereiro de 2026, os embarques para o mercado americano ainda não retornaram aos patamares anteriores a 2025, embora tenham apresentado uma melhora gradual após a retirada da sobretaxa. A continuidade da tarifa única de 10% nos EUA é vista como essencial para a competitividade do setor nesse mercado.
Fatores Adicionais e Perspectivas Futuras
O Relatório Indústria de Calçados – Brasil 2026, da Abicalçados, também aborda dados sobre produção mundial, emprego, comércio exterior, segmentação produtiva e avanços em práticas ESG (Ambiental, Social e Governança) no setor. A perda de postos de trabalho na indústria calçadista em 2025, com um recuo de 1,1% e a eliminação de 3 mil vagas, encerrando o ano com 273,9 mil empregados, reflete os desafios enfrentados pelo setor.
O panorama para o período atual, segundo a Abicalçados, combina desafios estruturais com oportunidades de expansão. A internacionalização, a inovação comercial e o fortalecimento institucional são apontados como caminhos para a adaptação do setor. A expectativa é de um ano de crescimento moderado, porém mais qualitativo, com maior diversificação de mercados externos e recuperação gradual da produção, visando fortalecer a competitividade das empresas brasileiras no cenário global. O acordo Mercosul-União Europeia, com a redução de tarifas para calçados, também pode representar uma oportunidade futura para o setor.