Açúcar Bruto Dispara: El Niño e Preocupações Climáticas Elevam Cotações a Máximas de 18 Meses
Açúcar bruto atinge maior cotação em 18 meses com El Niño e temores de déficit global. Produção em países-chave sob pressão climática. Mercado em alerta.
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Destaques
Pico de 18 meses: Os contratos futuros de açúcar bruto alcançaram seu maior patamar em um ano e meio, sinalizando uma mudança no sentimento do mercado em relação às perspectivas de oferta.
El Niño como fator chave: O fenômeno climático El Niño é apontado como um dos principais impulsionadores da alta, com projeções de que afete significativamente as safras dos maiores produtores mundiais, como Brasil, Índia e Tailândia.
Déficit global em perspectiva: A Organização Internacional do Açúcar (ISO) projetou um déficit global para a safra 2026/27, revertendo o cenário de superávit previsto para a safra anterior, o que contribui para a sustentação dos preços.
O Cenário Global de Oferta e Demanda Sob Pressão
O preço do açúcar bruto alcançou nesta sexta-feira, 2 de outubro de 2026, sua maior cotação em 18 meses, impulsionado por uma crescente apreensão em relação à produção global e aos impactos do fenômeno climático El Niño. O contrato de açúcar bruto negociado na bolsa ICE atingiu um pico de 19,96 centavos de dólar por libra-peso, fechando o dia em 19,93 centavos, um avanço de 0,99 centavo ou 5,2%. Essa valorização reflete um mercado que precifica um potencial déficit na próxima safra, apesar de uma oferta ainda abundante no curto prazo.
A recente alta nos preços do açúcar bruto é um reflexo direto das preocupações com a disponibilidade futura do produto. A Organização Internacional do Açúcar (ISO) divulgou em 1º de setembro de 2026 uma projeção de déficit global de 200.000 toneladas métricas para a safra 2026/27. Este número contrasta drasticamente com o superávit de 1,1 milhão de toneladas métricas estimado para a safra 2025/26. Essa reversão no balanço global de oferta e demanda tem sido um dos pilares para a sustentação das cotações.
Vários países cruciais para a produção mundial de açúcar devem registrar quedas em suas colheitas na safra 2026/27. Entre eles, destacam-se a Índia, a Tailândia e a União Europeia, cujas produções são fortemente impactadas pelo fenômeno climático El Niño. A seca na Índia, por exemplo, tem sido um fator de preocupação, com estoques baixos e uma produção que pode ser menor. Na Tailândia, a produção na safra 2026/27 pode cair até 17%, atingindo cerca de 10 milhões de toneladas. Na União Europeia, a seca severa deste verão afetou a safra de beterraba açucareira, resultando em um dos piores desempenhos em mais de uma década.
O Impacto do El Niño nas Principais Regiões Produtoras
O fenômeno El Niño tem se consolidado como um dos principais vetores de instabilidade no mercado de commodities agrícolas, e o açúcar não é exceção. A intensidade prevista para o El Niño, que deve atingir seu pico entre o final de 2026 e o início de 2027, é um fator de grande atenção para produtores e analistas.
Brasil: Chuvas Excessivas Prejudicam Colheita
No Brasil, o maior produtor mundial de açúcar, o El Niño tem se manifestado com chuvas excessivas em importantes regiões produtoras, como o Centro-Sul. Essas precipitações têm dificultado a colheita e a moagem da cana-de-açúcar, impactando a produção atual. Segundo dados governamentais, a produção brasileira de açúcar caiu 41,6% na primeira quinzena de setembro. Embora o excesso de umidade possa beneficiar o desenvolvimento da cana para a safra 2027/28, no curto prazo, as interrupções na colheita e a redução na eficiência operacional são preocupações reais.
Índia e Tailândia: Seca e Estresse Térmico Ameaçam Safras
Enquanto o Brasil enfrenta excesso de chuvas, outras regiões produtoras importantes, como a Índia e a Tailândia, sofrem com condições opostas: seca e estresse térmico. Na Índia, a monção fraca e as altas temperaturas têm reduzido a produtividade, e os estoques estão em níveis historicamente baixos. A Tailândia, segundo maior exportador mundial, também tem sua produção ameaçada por chuvas abaixo do normal e temperaturas elevadas. Essa divergência climática entre as principais regiões produtoras intensifica a vulnerabilidade da cadeia produtiva do açúcar a eventos climáticos extremos.
Análise de Mercado e Perspectivas Futuras
A atual cotação do açúcar bruto reflete um mercado em busca de equilíbrio entre a oferta abundante no momento e as preocupações com a sustentabilidade da produção futura. A entrega física referente ao contrato de outubro na Bolsa de Nova York, que foi a maior do ano até o momento, totalizando 1,45 milhão de toneladas, reforçou a percepção de que o mercado está bem abastecido no curto prazo. No entanto, essa oferta abundante tem sido ofuscada pelas perspectivas de déficit na próxima safra.
Analistas como os do Commerzbank destacam que as perspectivas para a safra 2026/27 se deterioraram significativamente. "Caso essas condições climáticas adversas persistam, é provável que haja novos aumentos nos preços", alertou o banco. A concentração da produção em países expostos ao El Niño – Brasil, Índia e Tailândia – torna o açúcar um indicador sensível dos danos mais amplos às lavouras.
A ligação entre os preços do açúcar e os do petróleo também merece atenção. Os preços mais altos do petróleo, por exemplo, podem influenciar a decisão das usinas brasileiras de direcionar mais cana para a produção de etanol em detrimento do açúcar, caso a rentabilidade do biocombustível seja mais atrativa. No entanto, a força do fenômeno El Niño e suas consequências diretas na oferta de açúcar têm sido o fator dominante.
As projeções de mercado variam, mas a tendência geral aponta para um balanço mais apertado. Enquanto algumas estimativas, como a da StoneX, preveem um déficit de 900 mil toneladas na safra 2026/27, outras, como a do Bradesco, apontam para déficits mais acentuados. A Organização Internacional do Açúcar (ISO) projetou um déficit de 200 mil toneladas para a safra 2026/27, revertendo um superávit anterior. Essa incerteza climática e as projeções de balanço mais apertado sugerem que os preços do açúcar bruto podem continuar voláteis, com potencial para novas altas caso as condições climáticas adversas se intensifiquem ou persistam.
O açúcar, como commodity, tem um papel importante na inflação global de alimentos, adicionando uma camada de preocupação para formuladores de política monetária que já lidam com outros choques inflacionários. A dinâmica atual do mercado de açúcar, impulsionada por fatores climáticos e projeções de déficit, continuará a ser um ponto de atenção nos próximos meses.